As duas infelicidades do Tenente-Coronel Maximiano José da Serra:

O Tenalhão e a Atafona

Major Pereira de Castro
27 de agosto de 2020
As duas infelicidades do Tenente-Coronel Maximiano José da Serra
Em 1089, as tropas francesas, depois de uma semana a causar devastações na área de Valença, de que sobressai o incêndio do Mosteiro de Ganfei e o da casa da Ponte do Manco, além de outras tropelias, resolveram, antes da partida para o Porto, “cuspir no prato”, isto é colocaram duas potentes bombas nas Portas do Sol e cortina do mesmo nome que fizeram ruir grande parte do Mosteiro de S. João de Deus, onde, além de outros serviços, como o laboratório da Artilharia, funcionava o Hospital Militar, isto depois de, antes de entrarem na Praça, se terem comprometido com o seu Governador a respeitar o recinto e quantos nele habitavam.
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Em 1811 iniciam-se as obras de reparação da fortaleza, que, além de reparar as ruínas causadas, procuraram acudir a outras falhas existentes em cortinas e baluartes que era urgente repor. É nessa altura, por exemplo, que se faz a construção do revelim da Fonte, do lado Poente da Praça, que levou seiscentos carros de pedra por causa dos três olheiros de água ali existentes, e o Tenente - Coronel Maximiano José da Serra, retira, por ordem do Marechal Beresford, Marquês de Campo Maior, Comandante dos Reais Exércitos, do baluarte de S. Francisco, o Tenalhão que ali tinha sido colocado em pleno séc. XVIII para reforçar a defesa de toda a parte nascente, e reforçar a parede da cortina, sendo a entrada por um dos braços da cortina. A parte dramática da questão acontece com o “apeamento” da muralha que começou a ser feito com o estacamento da base quando a parede devia começar a ser construída totalmente de novo, pois a dita obra, mais que para defender o local, existia, na realidade, para segurar o movimento das terras. Ora acontece que na parte superior da muralha se abriram fendas que com o peso dos edifícios próximos mais se alargaram levando, por gravitação, ao derrube de todo o muro e dos próprios edifícios com o agravamento da água das chuvas dado a época de tais melhoramentos estar a ser no Inverno. A análise deste triste acontecimento é feita, pormenorizadamente, em 1814, pelo Coronel Carlos Frederico de Paula, Coronel Engenheiro, e pelo Tenente General Matias José Dias Azedo.1  Associada a esta infelicidade está (indevidamente) a construção de uma Atafona que o mesmo dito Tenente - Coronel fora incumbido de fazer na fortaleza numa rua que ligava o Largo do Eirado à Colegiada, e que, por azar, não tinha chegado a funcionar em virtude de ter sido feita grande de mais para o espaço disponível e com materiais inadequados, isto apesar das tentativas do militar para fazê-la funcionar introduzindo-lhe alterações. Situava-se o edifício na então rua do Engenho, hoje Maestro Sousa Morais, edifício que foi destruído para construção do edifício dos Correios2 2.
Daí que uma e outra obra viessem sempre a ser apreciadas em conjunto quando uma nada tinha a ver com a outra, a não ser que se procurasse provar a incompetência daquele militar por muito que o mesmo dissesse que fizera o melhor que lhe fora possível com os matérias ao seu dispor e nisso consumira o melhor do seu saber e esforço. Essa era, de resto, a opinião geral: não tivera nem artistas nem materiais próprios para tal empreendimento. Simplesmente o mecanismo fora mal concebido e as dimensões do edifício não proporcionadas às dimensões da máquina. Um engenheiro militar - dizia-se na informação - não é um maquinista e bem que o Tenente - Coronel Maximino José da Serra, como observou o Coronel Paula, “poderia achar na Enciclopédia e em muitas obras de Economia Rural mecanismos desta natureza. A falta de bons artistas e de boas madeiras o deviam determinar a pedir esta máquina feita ou no Arsenal do Exercito ou nas Fábricas de Maquinista Matheos ou do Artista Matheo”. 

O Tenente - Coronel Maximino José da Serra acabou por ser transferido sendo substituído pelo seu auxiliar Capitão Arbués Moreira, mais tarde General.

NOTAS
1 O Tenente - Coronel Maximiano José da Serra fora promovido a este Posto em 3 de Novembro de 1807. Em 1 de Julho de 1818 é promovido a Coronel (Rel Ord. do Dia de Sua Alteza Real o Senhor Infante D. Miguel, ano de 1824 - Lisboa I mp. da rua Formosa, nº42. Ano de 1824, fl151). Em 28 de Dezembro de 1826 é graduado no Posto de Brigadeiro. Em 11 de Agosto de 1828 é preso por ordem do Ministério da Justiça endereçada à Intendência de Polícia por suspeita de posição contra a Realeza, mas em 11 de Fevereiro de 1829 é solto por falta de provas. No entanto, D. Miguel reformou-o por Decreto de 23 de Agosto de 1830.
2 Foi este Engenho (moinho) que deu o primitivo nome à rua

 

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