Não, a crise que vivemos não é essencialmente material

15 de junho de 2016
A crise que vivemos
Os assuntos da economia e das finanças dominam este como outros espaços de opinião mas não é aqui nova a perspetiva de a nossa crise não ser uma crise de escassez ou de perda de condições materiais de vida.
Tendemos, é certo, a sacrificar quase tudo à materialidade, esquecendo que a felicidade deve muito a valores que não estão no mercado.

Não se vendem, não se compram, cultivam-se, adotam-se, fazem ou não parte da humanidade em função das vontades coletivas em cada momento da História.

Porque tenho consciência que poucos valores fundamentais são intemporais, tenho procurado fazer um esforço para fugir ao tremendismo tão na moda. E por isso sinto um certo desconforto ao reler-me quando não resisto a exprimir o meu pessimismo sobre o tempo de crise profunda de valores que vivemos, de acordo com uma visão naturalmente forjada pela educação que recebi.

Visão parcial e subjetiva de uma crise que a meus olhos atinge em especial as elites, aquelas que influenciam as decisões de largo espetro, as que se refletem intensamente na vida das pessoas e que têm, na sociedade fortemente mediatizada que vivemos, um efeitos arrastador.

Correndo o risco de me chegar cada vez mais perto da figura do Velho do Restelo, não me coibo, porém, de partilhar a opinião sobre um tema que me inquieta muito.

Aqueles palcos onde todos aplaudem o que não resiste a uma sereno juízo feito pela razão e não pela emoção, aí onde medra o politica e o socialmente correto, vem sendo colocada a questão do deficit de proteção devida aos animais.

Por cá, o ordenamento jurídico vai acolhendo a ideologia que professa que animais e pessoas devem ser sujeitos de Direito, igualando no gozo de direitos todos os seres sencientes, esquecendo que não se pode impor aos animais deveres de conduta que correspondam a correlativos dos direitos reconhecidos.

Vou-me, perante os exageros, confortando com a ideia de que existem leis que não são produto da vontade de parlamentares e governantes. As leis da natureza, essas, não cedem à irracionalidade dos homens e vão, elas sim, comandando contra a vontade irrealista do legislador... Mas é também notório que se vai perdendo a noção da hierarquia dos valores.

Um último exemplo disso é a reacção ao episódio passado no Cincinnati Zoo. Um gorila foi abatido depois de uma criança de 4 anos ter caído ao fosso e ter sido arrastada pelo animal. Ergueu-se uma onda de indignação e censura contra o responsável do zoo que tomou a decisão de trocar a vida do animal pela vida ameaçada de uma criança, naquela circunstânia absolutamente indefesa. Dizem uns que a situação permitia usar de meios que evitassem a morte do animal. Os mais brandos nos protestos opinam que a situação era dilemática, deixando no ar a suspeita de a decisão de eliminar o gorila ter sido precipitada por não haver certeza que o instinto não fosse protector em vez de assassino. Fico arrepiado perante a quantidade de gente que não percebe que a certeza poderia custar a morte de uma criança!

As censuras dirigidas por alguns líderes de opinião ao responsável pelo zoo provam, pois, como andam desgraçadamente baralhadas as mentes desta novel intelectualidade. O princípio da precaução, se tem aplicação sem limites, é exatamente na situação em que possa estar em risco a vida humana. E naquele caso seria criminoso, por mais dócil que julgasse ser o animal, não afastar a hipótese de a criança ser gravemente molestada ou mesmo morta.

A hesitação perante a hierarquia dos valores em presença, essa sim, poderia ser caso de negligência criminosa, sem perdão nem arrependimento.

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