Contos do Verde Minho

XII Conto - A Galinha Cega

Silva Ferreira
6 de novembro de 2013
Contos do Verde Minho
Não tivesse sido um Grande, Grande Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, o título deste pequeno conto seria outro. De todas as pequenas histórias que pelo Alto Minho me contaram, esta foi a única que veio manuscrita a lápis de carvão sobre duas folhas de papel.

Poucos serão os narradores que têm essa sorte.
É por essa única e exclusiva razão que sem remendos nem arremedos a Galinha cega vai passar assim:

... “Havia uma senhora que tinha uma abastada capoeira de galinhas; brancas, pedreses, pretas e vermelhas ... umas carecas outras não; com certeza q ue me faço compreender quando digo: umas carecas, outras não; mesmo assim esclareço: as carecas são aquelas que têm um lindo pescoço sem penas. Se faço esta referência é porq ue penso q ue só as pessoas – principalmente as criança – principalmente as crianças – de pequenas vilas ou aldeias, sabem distinguir as galinhas carecas daquelas que não são carecas. Feito o esclarecimento va mos lá reencontrar o conto. Conto verídico: a tal dona da tal abastada capoeira ficou triste naquela manhã quando ao deitar milho às esfomeadas deu com uma das carecas cegas ... ceguinha de todo. Triste pela cegueira da pobrezinha pensou: o melhor é pô-la fora da capoeira ...ela assim sem ver não se defende e as outras comem-lhe o milho todo... cega e a morrer de fome?... meu Deus...

A lma caridosa, a boa senhora, lá foi alimentado a galinha: grão na mão, grão no bico... e assim se fez forte e linda aquela galinha cega para viver enquanto Santo António – advogado dos animais – quisesse ...

... Só que um dia – há sempre um dia, tanto para as galinhas carecas ou cegas como há para os galos – a bondosa senhora resolveu trazer para a capoeira um galo; estava ela, infeliz viúva, farta de saber a falta que faz um galo; por isso o trouxe, por isso o pôs de regalo para ele e para elas... ai, lindo que era esse galo!... belo, vermelho, com poucas penas pretas à mistura, que cor tão linda no conjunto... e o resto?... as pernas e amarela, o pescoço erguido, a crista escarlate, o bico adunto à frente dos olhos e aq uela ca beça, gira ndo, girando, abanando os brincos vermelhos... vermelhos... ai que tentação!... diziam as galinhas quando elas as saltou... ele... porque galo é galo... começou logo a arrastar as asa; não pelo chão, sim pelas asas das galinhas... cocoroliando como só os galos sabem cocoroliar... quando são galos de verdade e acreditam que galo que se preze não deve deixar para amanhã as galinhas de hoje... quem sabe se amanhã uma delas não será cabidela!?... pensou ele; e, vai daí, galou, doidamente, fartamente... ali, bem perto dele, estava a galinha cega, cega por não ter amor, cega por ele e mais nada.

Acontece, com os galos – e também com os humanos – esta forma estranha de cegueira... o galo que via, não via... mas a galinha cega via.

A noite inteira de descanso, era precisa... pensou a galinha cega... depois...

Depois foi a Alvorada... cócorocó... cocórocó... e as asas dela afagando as dele; de tal jeito se deitou, que o galo já refeito de tanto amor tão mal feito, a ba nou os brincos vermelhos, penicou-lhe o pescocinho e ga lou a mor perfeito; saído de cima dela aquele galo garboso encheu o peito com ar, deu às asas e voou...

E a Galinha?... a galinha recuperou a vista... põe ovos que darão galos – quantos mais muito melhor – e vê sempre um grão de milho esteja ele onde estiver.”

...este foi o conto... tentai nele descobrir carinho, amor e liberdade...

Adicionar comentário

Siga-nos

Leia as últimas notícias através das redes sociais!

Receba as últimas notícias!

Enviamos via e-mail diretamente par si.

PUB
PUB
PUB
Advogados Reunidos

Instagram

Últimas nas Redes