A indústria de panificação em Valença

António A. Pinto Alves
6 de novembro de 2013
 A indústria de panificação em Valença
Durante o tempo em que estavam cá fixadas as forças militares, dentro da sua vivência, o abastecimento de víveres, principalmente, estava assegurado pelos serviços nelas organizados.
Por esse efeito, a cooperativa militar, era o centro onde as famílias dos elementos que compunham as forças castrenses, se abasteciam.

Conquanto, este departamento fosse concretamente destinado à família militar, é bem certo e verdade, muitos civis conseguiam comprar ali as mercadorias que lhes interessavam, através de permissões autorizadas ou arbitrariamente obtidas. Quem não estava satisfeito com esta unilateral permissão era o comércio local, dispondo-se a aceitá-la, por não ter outro remédio e, muitas vezes, por usufruir de algumas vantagens.

No âmbito da cooperativa, havia a padaria, fabricando pão para os senhores Oficiais e Sargentos e “casqueiro” destinado à galuchada. Assinale-se que os paisanos tinham livre acesso aos produtos ali manipulados. Pode entender-se ser este um dos motivos por que, em Valença, não existia nenhum fabricante do pão nosso de cada dia.

À medida que foram extintos os considerados destaca mentos militares (milhares de elementos), iam-se suprimindo os serviços de apoio que lhe estavam subjacentes. O mais gravoso, para a gente valenciana, era a falta que lhe fazia o abastecimento diário do pão. O recurso era Tuí. Logo de manhã, bem cedo, a lufa-lufa da aquisição do pão ocasionava um movimento enorme na ponte. Não só os particulares que tinha m viabilidade de se deslocar a Tuí, como contratados por merceeiros que, a troco de uns centavos por peça de pão, tinham assegurado, dessa forma, o abastecimento dos seus clientes.

Tudo na vida acarreta trabalho, mas há missões que fatigam mais rapidamente que outras, e, neste contexto, a desistência da prestação do serviço combinado, foi um q uebra-ca beças para os beneficiários. Em total acordo com o aforismo “não há bem que sempre dure nem mal que nunca aca be”, pelos a nos 30 impla nta m-se cá dois industriais de panificação: um, de nome Dantas, abre uma padaria na Rua Apolinário da Fonseca, nas imediações da Igreja da Senhora do Carmo (Coroada); outro, na Rua Direita, logo a seguir à Cadeia, os irmãos Rodrigues. Enquanto o primeiro vendia ao balcão e, com a colaboração de seu irmão Vita lino, distribuía pelos comerciantes as quantidades solicitadas, o segundo quedava-se unicamente na venda aos moradores da vila.

O produto valenciano deixava muito a desejar em relação ao espanhol, tanto que, dura nte muito tempo, e enquanto o preço foi apetecível quanto o sabor, deu-se preferência ao gostosíssimo pão galego.

A concorrência galega, a q uem não era atribuída qualquer culpa por intromissão, antes pelo contrário, levou o Sr. Dantas a acrescentar o fabrico de produtos de pastelaria e confeitaria. Na frente das suas instalações fabris abriu um estabelecimento e, então, o ânimo regressou. No caso dos Srs. Rodrigues seguiram as pisadas do concorrente. O fabrico aqui era mais virado para um limitado número de produtos, excluída a pastelaria. As suas instalações eram mais próximas da clientela, centralizadas na vila, a partir das Portas do Meio.

Anteriormente à chegada dos acima citados industriais, dispunha a Terra de um posto de venda essencialmente de pão, ao ar livre sem qualquer instalação senão um banquito e uma alcofa. Esta parca acomodação era amovível por causa de modificações atmosféricas, mormente da chuva quando não podia suportar-se mesmo com agasalho adequado. O local preferente era num pequeno terreiro existente no início da Avenida de Cristelo. A negociante era a Sr.a Prazeres do Pão. Também, associado à venda de pão, incluía rebuçados, tremoços, na altura das romarias papudos, rosquilhas, no tempo mais ameno pirolitos, fruta da época, alcagoitas e, neste reduzido negócio, o quase nada era o quase tudo. Juntamente tinha o filho António, somente conhecido por Parrachona, para tomar conta dele e aproveitar a sua companhia ajudando-a como mandarete. Ali passava o dia inteiro, ou recolhida nas proximidades, se chovesse. O filho, irrequieto, cirandava à volta da futrica, sujava-se completa mente nas cambalhotas e traquinices que fazia, imitava os jogadores do Valenciano usando a riqueza que tinha, uma bola de farrapos acondicionados numa peúga velha sem possibilidade de ser remendada. Mesmo assim todo o aspecto do in fa nte, desleixado e sujo, era de um ar saudável, de viçosas cores e robustez impressionável. Essa observação viu-a o excelente médico que Valença teve, Sr. Dr. Bernardino José Fernandes Ribeiro, pai de um menino da mesma idade do A ntónio, levando-o a solicitar à Sr.a Prazeres que consentisse ao seu filho acamaradar com o dela. – Ó Senhor Doutor, o seu menino nesta bodeguice? A resposta foi instantânea: - Olha, Prazeres, o teu filho anda nessas bodeguices como tu dizes e vende saúde. O meu, com todos os cuidados e com assistência a todos os momentos, está lá um en fezado q ue até me assusta. Dá-lhe de comer o que o teu come, deixa que faça o que o teu faz e não te importes, eu pagar-te-ei tudo. Toma lá, para já, e deu-lhe uma quantia para início do tratamento!... Este episódio sai fora do contexto mas achamos que a acção da Sr.a Prazeres no caso da incumbência do Médico, foi tão útil e prestante, como a que teve em servir quem precisava de comprar pão e que não tinha onde. O pão de trigo começou a ter um sério concorrente.

O pão de milho que, praticamente, se consumia nas zonas rurais. Contudo, toda a gente come broa, a questão é dar-lha. Coisa q ue se tornava difícil de conseguir, porque não havia onde a comprar. Foi, então, que na Rua de Trás do Jardim, junto à Pensão da família Nascimento Rodrigues, se estabeleceu o Sr. António Queirós com o fabrico e venda de broa. Boa qualidade, perfeição e higiene no fabrico, fornadas atempadas e bastantes, mantendo a frescura do pão tão necessário.

A broa do Queirós vai ganhando fama e já é procurada por gente das freguesias mais próximas. Até nas aldeias já se ganhou o hábito de comer pão de trigo ao pequeno-almoço. Nas duas grandes refeições prefere-se a broa e, a do Queirós, até por lá era consumida. Vão-se nota ndo algumas modificações nos sistemas de vida, entre as quais a manifesta proliferação dos agentes distribuidores dos bens de consumo imediato, e não só, levando o cidadão a preferências económicas. Se boas, se más, cada qual deverá prestar a melhor atenção ao caminho percorrido, que já conhece, bem como o que ainda não trilhou, que ignora. O tempo decorrente aconselha certezas e abomina fantasias. É bem certo, o ca minho norma lmente escolhido, recorre à fantasia com a esperança de obter a certeza.

Assim, e no sentido material do que enforma o pensamento anterior, essencial, indispensável, útil e saudável é ter assegurado o pão nosso de cada dia e, se for possível, semelhante ao galego, do Dantas, dos Rodrigues ou do Queirós.

Nota: - Sétima referência acerca do desenvolvimento económico da nossa Terra.

Adicionar comentário

Siga-nos

Leia as últimas notícias através das redes sociais!

Receba as últimas notícias!

Enviamos via e-mail diretamente par si.

PUB
PUB
PUB
Advogados Reunidos

Instagram

Últimas nas Redes